Nasci num pólo industrial (Cubatão), e desde criança fui orientado ao mercado em torno das indústrias. Descobri o mundo da Cultura um pouco tarde, no primeiro ano do Ensino Médio, e li nesse período mais do que muita gente lê na vida toda; e li de tudo: literatura brasileira, americana, russa, poesia de todo canto, filosofia de todo tempo... No entanto conseguia ler e adolescer – nunca fui NERD, ainda que me chamassem de “filho do Abmael” - o professor de Literatura que fez eu me apaixonar por livros. Eu tocava violão, organiza pequenas rebeliões, estava sempre cercado de uma galera muito saudável, e se perguntassem o que mais fazíamos, diria sem duvidar: ríamos.
No final do segundo ano, entre os realistas e parnasianos no livro de Literatura do José de Nicola, prestei vestibular para o curso Técnico em Automação, na Escola Técnica Federal (hoje CEFET). Na minha cabeça aquilo era só um teste; não tinha um fim específico; eu não tinha sonhos com o mundo da Automação. Aliás, que diabos era Automação?
Acontece que eu passei em 13° lugar... e minha sábia mãe disse:
- Agora que passou, vai fazer.
- Mas mãe, não é isso que quero fazer...
- E você vai fazer o quê? Eu não tenho condições de pagar sua faculdade. Seu pai... – então ela faz aquele gesto de desdém impossível de descrever.
Na verdade eu não sabia bem o que queria fazer. Gostava de Literatura, gostava de escrever... pensava em Filosofia, Jornalismo, Letras... Eu ainda tinha 1 ano pra decidir! Mas ouvi a minha mãe, e não me arrependi.
Tempos depois li em Antonio Gramsci, num texto de 1916:
“
O proletariado, que está excluído das escolas de cultura média e superior por causa das atuais condições da sociedade... tem de ingressar nas escolas paralelas: técnicas e profissionais. [Estas escolas são] em grande parte, uma repetição inútil das escolas clássicas, bem como um inocente desaguadouro para o empreguismo pequeno-burguês. As taxas de matrícula em contínua ascensão, assim como as possibilidades concretas que dão para a vida prática, fizeram também delas um privilégio e, de resto, o proletariado é excluído, automaticamente e em sua grande maioria, por causa da vida incerta e aleatória que o assalariado é obrigado a viver; vida que, seguramente, não é a mais propícia para seguir com proveito um curso de estudos.”
(Homens ou Máquinas in Textos Políticos Volume I)
Fiz em paralelo o último ano do Ensino Médio e o primeiro do Técnico, e tudo ainda era diversão. Como eu sabia que era o fim de uma fase, cortei meu cabelo estilo moicano, quando isso era uma aberração. De certa forma, consciente ou não, fui me despedindo de minha infanto-juventude.
Assim que terminei o E.M., meu pai conseguiu um estágio pra mim. Uma empresa de 4 pessoas: um funcionário, um estagiário e dois donos. Embora fosse uma empresa minúscula, um chefe incompetente e o filho dele que além de incompetente era maconheiro, eu aprendi muito, seja por força de vontade (lia manuais com a voracidade que antes lia poesia), seja pela amizade de meu companheiro de trabalho Zé, que me ensinou muito do que sei hoje. Detalhe: o Zé é semi-analfabeto, mas tinha uma inteligência fenomenal. Quando eu ficava meio ansioso com minha situação, dizia: se acalme... dias melhores virães (sic)!!!
Observação: o estágio era em São Bernardo do Campo e eu cursava o segundo e último ano do técnico em Cubatão, no período noturno.
Nesse primeiro e único ano de estágio passei pela montagem, projeto e orçamento de Quadros Elétricos. Modéstia a parte, adquiri muito conhecimento, o que me rendeu emprego numa empresa para a qual prestávamos serviço. Meu primeiro registro em carteira foi um ano após me formar um Técnico (citar Gramsci).
De certa forma me encantei com a área de Automação. Com pouquíssimo tempo de serviço eu já era “chefe” de todo um setor (por “chefe” entenda aquele indivíduo que faz de tudo um pouco, sem ganhar o suficiente pra isso – o que é absolutamente diferente de um gerente). Isso fez com que eu encarasse o curso de Engenharia. Não passei do segundo semestre...
O curso de engenharia, pra alguém que trabalha na área, é um porre. Pelo menos para mim o foi. Só números, contas, cálculos, e nada de realidade técnica, prática. Mais pra frente pretendo expressar minha opinião sobre os cursos de engenharia de hoje em dia.
Parei a engenharia e fui cursar Relações Internacionais. Essa mudança de curso envolve um pouco de fatores muito pessoais, o que não faz parte da proposta deste blog. No curso conheci gente fantástica, e vivi um período igualmente fantástico. Tive que parar por problemas financeiros (por ‘problemas financeiros’ entenda ‘incompetência para administrar as próprias finanças’). No entanto, foi lá que tive uma “Introdução ao Direito”, e ouvi da professora que eu tinha era que fazer Direito.
Tempos depois surgiu a oportunidade: agora ia fazer direito! Me matriculei na Unicsul (um lixo de faculdade), me transferi para a Uninove (um pouco melhor) e pretendo mudar de faculdade mais uma vez, mas não pretendo abandonar o Direito.
Hoje enxergo a necessidade de adquirir mais conhecimento na área de gestão, marketing, vendas e ir sempre atualizando a Elétrica e a Automação. Mas não tenho vontade de fazer um curso de graduação em nenhuma dessas áreas. São coisas sobre as quais pretendo escrever depois.